9 de nov de 2007

"Sua tola! Por que ris?"

Este texto já tem alguns meses. Da situação sobre a qual trata resultou uma terceira ou quarta maneira de ver os envolvidos.


Ontem vi um casal de mendigos se beijando. Beijavam-se ardentemente, cheios de desejo. Ela usava um casaco comprido até os joelhos e touca rosa; tinha as mãos apertadas, prevendo o frio jamais visto em sete anos. Ele, com a barba por fazer, vestia apenas um moletom surrado e carregava nas costas grandes sacos cheios de (o que me pareceu) material reciclável. Certamente, seu ganha-pão.
O beijo foi demorado, dengoso, apaixonado, em uma esquina movimentada da capital, diante de uma loja de automóveis caros. Ela o beijava de olhos abertos e sorria. Ele a mirava, comovido com a beleza de seus traços.
Vi essa cena e a achei engraçada. Nunca havia visto dois mendigos aos beijos. Fiquei surpresa, curiosa. Achei ridículo. Mas, em seguida, censurei a mim mesma e arranquei o sorriso do rosto: “sua tola! Por que ris? Por acaso eles não têm direito ao amor”?
A noite já caíra, o movimento do trânsito intensificara-se pela volta para a casa. Eu estava de passagem, rápida, coberta com um pesado casaco de lã. Seguia rumo à sala de aula, desanimada, exausta, condenando a infelicidade de ter de voltar mais tarde pra casa. Ia resmungando e contando os minutos. Estava tão frio... Precisava desesperadamente jantar, tomar um banho e dormir. Não, com certeza, assistiria antes, esparramada no grande sofá e envolta num cobertor, a um lançamento recém-chegado nas locadoras que estava na sala lá de casa, maravilhosamente acompanhada dos meus irmãos.
O casal, no entanto, não estava voltando. Nem indo. Só estava ali, parado no tempo, tendo apenas um ao outro. E bastava. Eles estavam a sós consigo mesmos, perdidos no brilho de seus próprios olhares, sorrindo com a cumplicidade de um casal feliz, apesar do frio, apesar do mau cheiro que exalavam de seus corpos, apesar da mediocridade de sua existência.
Eu fui medíocre. “Sua tola! Por que ris? Por acaso eles não têm direito ao amor? Por acaso o caminho deles é diferente do teu? Por acaso não sentes o mesmo frio? Teus olhos não brilham da mesma maneira?”
Não. Os olhos do casal brilhavam mais, pois resistiam às asperezas de todos os dias. O frio era quase insignificante diante do abraço macio, consentido em público, para que a interminável fila de carros da avenida movimentada testemunhasse o amor dos dois. Mas, sim, o caminho deles é diferente do meu. Eles dormem mal, moram mal, comem mal. Juntos. Eu sigo para a sala de aula, resmungando e condenando a infelicidade de ter de voltar mais tarde para a casa.