26 de jul. de 2008

Malditas metáforas...

Quanto a gente paga para estacionar aqui por todo esse tempo?
Sai muito caro ficar parada vendo o trânsito fluir de dentro de uma caranga que anda apenas a 20km/h?Quanto vai me custar a brincadeira de ver tudo por trás da janela, sorrisos do lado de fora, cachorros passeando com seus donos, amigos divertindo-se nas mesas dos bares, casais com chimarrão no parque verde, enquanto o meu carro permanece enguiçado, aguardando por uma boa chacoalhada para seguir a viagem?
Hein... Quanto vai ser?

Moço, dá para parcelar?

26 de mar. de 2008

Quem merece ser chamado de herói? (texto adaptado de Gilclér Regina)

Segue uma pequena reflexão sobre as pessoas que merecem ser chamadas de heroínas...

Quando tu ligares o aparelho de TV, mesmo zapeando, e ver um conhecido apresentador dizendo, num intervalo de jogo: "vamos dar uma espiadinha nos nossos heróis", tu também chegas a perguntar a ti mesmo se que aquilo merece o título de "nossos heróis"? Todos têm o direito de aparecer, mas daí a chamá-los dessa maneira é demais!
As pessoas que merecem o título de heróis são aquelas que abrem mão do seu conforto para servir a quem precisa mais. Heróis são aqueles que arriscam a vida em meio a bombardeios de guerras insanas. Heróis são aqueles que enxergam o sofrimento alheio e se colocam a postos para ajudar no que for preciso. São aqueles cuja vida e paixão sobrepujam a omissão. São aqueles solidários que partilham dons e bens.
Há muitos tipos de heróis... Não são celebridades, são profissionais, amadores, enfermeiras, médicos, faxineiros, voluntários, simplesmente voluntários, heróis com causas mais nobres...
Heróis como médicos que visitam aqueles que nem aos precários serviços de saúde pública têm acesso; educadores que partilham seus conhecimentos com estas mesmas pessoas; psicólogos que semeiam saúde e esperança por onde passam...
Heróis são os artistas que conquistaram sua carreira com muito suor, treinamento e trabalho, e não como um pára-quedas caído do céu. Heróis são os empresários que pagam impostos e dão emprego num país onde reconhecidamente os tributos estão entre os mais caros do mundo. Heróis são os políticos, de direita ou de esquerda, com causas verdadeiras e abominadores da corrupção. Mesmo que sejam poucos os que jogam nesse time.
Heróis são funcionários que se preocupam com trabalho, que pensam, que agem, que buscam o melhor local para apostar no seu talento: a empresa. Heróis são aqueles que saíram das ruas e conseguiram inserção no mercado de trabalho. Heróis são aqueles que continuam nas ruas, revirando lixo na sua medíocre sobrevivência, agora chamados pela sociedade de recicladores - pelo menos, uma parte deles está se dando bem em cooperativas. Heróis são aqueles que acreditam que outro mundo é possível, mais humano e com mais amor. E tudo começa com pequenos gestos que possam gerar mudanças grandiosas.
Pequenos gestos que poderão gerar mudanças grandiosas... Pequenos gestos poderão se transformar em benefícios concretos...
Heróis são aqueles que contribuem não com programas fúteis que engordam a conta de alguns poucos, mas com programas humanitários, com causas sociais verdadeiras. Estas instituições precisam de apoio, sejam as entidades já reconhecidas ou outras que podem estar iniciando seu projeto neste momento. O nosso país precisa aprender uma lição básica: educar para trabalhar.
Todos têm de partilhar deste ideal. O Brasil precisa de mais heróis.

5 de jan. de 2008

Só de sacanagem (Elisa Lucinda)

“Meu coração está aos pulos! Quantas vezes minha esperança será posta à prova? Por quantas provas terá ela de passar? Tudo isto que está aí no ar: malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro... Do meu dinheiro, do nosso dinheiro, que reservamos duramente para educar os meninos mais pobres que nós, para cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais. Esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais...
Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança vai ser posta à prova? Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais?
É certo que tempos difíceis existem para aperfeiçoar o aprendiz, mas não é certo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz. Meu coração está no escuro. A luz é simples, regada ao conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e os justos que os precederam. ‘Não roubarás’. ‘Devolva o lápis do coleguinha’; ‘esse apontador não é seu, minha filha’. Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido de escutar, até habeas corpus preventivo, coisa da qual eu nunca tinha ouvido falar e sobre a qual minha pobre lógica insiste. Esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará.
Pois bem, se meteram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido. Então agora eu vou sacanear, mais honesta ainda eu vou ficar. Só de sacanagem.
Dirão:
- ‘Deixa de ser boba! Desde Cabral que aqui todo mundo rouba’!
E eu vou dizer:
- ‘Não importa, não será esse o meu carnaval. Vou confiar mais e outra vez, eu, meu irmão, meu filho e meus amigos. Vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês’.
Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambau!
Dirão:
- ‘É inútil! Todo mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal’!
E eu direi:
- ‘Não admito! Minha esperança é imortal. E eu repito: i-mor-tal’!
Sei que não dá pra mudar o começo, mas, se a gente quiser, vai dar para mudar o final”.

8 de dez. de 2007

Postagem de simples diarinho

Voltei à ativa! Desde 09 de novembro que eu não escrevo! Tempão, hein? Mas tive um bom motivo: estava debruçada em cima de um computador finalizando o meu trabalho de conclusão de curso. A maldita monografia. Na verdade, os dias se passaram entre um e outro ataque de desespero (e de preguiça também, confesso).
E como aconteceram coisas neste intervalo de tempo!
- descobriram uma reserva de bilhões de barris de petróleo e gás natural lá na Bacia de Santos;
- o fogo voltou a castigar as humildes mansões da Califórnia;
- uma adolescente ficou presa em uma cela com vários homens no Pará;
- o Kaká foi eleito o melhor jogador de futebol de 2007;
- o Corinthians foi rebaixado da primeira divisão (mas bem que o Tricolor poderia ter feito mais um golzinho...);
- o Hugo Chávez, surpreendentemente, foi contrariado na tentativa de reforma da Constutição da Venezuela;
E, entre tantos outros notórios acontecimentos, em que até a cesta básica de Porto Alegre ficou mais barata (!!!).
Num círculo mais próximo:
- passaram-se os aniversários dos meus pais e também o meu;
- meu afilhado completou dois aninhos e eu ainda não fui vê-lo;
- comecei a trabalhar na Dez Propaganda e já saí de lá;
- enfrentei e também provoquei algumas discussões em família;
- comecei uma dieta "bem pegada";
- recebi um convite mega especial e empolgante para passar o próximo reveillón na praia.
E a melhor notícia de todas: minha monografia foi aprovada com "A" legítimo! As três professoras que compuseram a banca me deram 10!
A verdade é que nem sequer metade dos propósitos que eu tinha para este ano foram concretizados. Não por falta de esforço, diga-se de passagem. Mas, tudo bem, ano que vem tem mais.

9 de nov. de 2007

"Sua tola! Por que ris?"

Este texto já tem alguns meses. Da situação sobre a qual trata resultou uma terceira ou quarta maneira de ver os envolvidos.


Ontem vi um casal de mendigos se beijando. Beijavam-se ardentemente, cheios de desejo. Ela usava um casaco comprido até os joelhos e touca rosa; tinha as mãos apertadas, prevendo o frio jamais visto em sete anos. Ele, com a barba por fazer, vestia apenas um moletom surrado e carregava nas costas grandes sacos cheios de (o que me pareceu) material reciclável. Certamente, seu ganha-pão.
O beijo foi demorado, dengoso, apaixonado, em uma esquina movimentada da capital, diante de uma loja de automóveis caros. Ela o beijava de olhos abertos e sorria. Ele a mirava, comovido com a beleza de seus traços.
Vi essa cena e a achei engraçada. Nunca havia visto dois mendigos aos beijos. Fiquei surpresa, curiosa. Achei ridículo. Mas, em seguida, censurei a mim mesma e arranquei o sorriso do rosto: “sua tola! Por que ris? Por acaso eles não têm direito ao amor”?
A noite já caíra, o movimento do trânsito intensificara-se pela volta para a casa. Eu estava de passagem, rápida, coberta com um pesado casaco de lã. Seguia rumo à sala de aula, desanimada, exausta, condenando a infelicidade de ter de voltar mais tarde pra casa. Ia resmungando e contando os minutos. Estava tão frio... Precisava desesperadamente jantar, tomar um banho e dormir. Não, com certeza, assistiria antes, esparramada no grande sofá e envolta num cobertor, a um lançamento recém-chegado nas locadoras que estava na sala lá de casa, maravilhosamente acompanhada dos meus irmãos.
O casal, no entanto, não estava voltando. Nem indo. Só estava ali, parado no tempo, tendo apenas um ao outro. E bastava. Eles estavam a sós consigo mesmos, perdidos no brilho de seus próprios olhares, sorrindo com a cumplicidade de um casal feliz, apesar do frio, apesar do mau cheiro que exalavam de seus corpos, apesar da mediocridade de sua existência.
Eu fui medíocre. “Sua tola! Por que ris? Por acaso eles não têm direito ao amor? Por acaso o caminho deles é diferente do teu? Por acaso não sentes o mesmo frio? Teus olhos não brilham da mesma maneira?”
Não. Os olhos do casal brilhavam mais, pois resistiam às asperezas de todos os dias. O frio era quase insignificante diante do abraço macio, consentido em público, para que a interminável fila de carros da avenida movimentada testemunhasse o amor dos dois. Mas, sim, o caminho deles é diferente do meu. Eles dormem mal, moram mal, comem mal. Juntos. Eu sigo para a sala de aula, resmungando e condenando a infelicidade de ter de voltar mais tarde para a casa.